sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Entrevista Cristiana Seixas


1. Como começou seu amor pelas letras?

O amor aos livros iniciou por uma sensação de não pertencimento na adolescência. Era muito alta, magra, tímida e não me identificava com os comportamentos e discursos das pessoas que me cercavam. Encontrei, na literatura, acolhimento e narrativas que fertilizaram diálogos internos.  Desde cedo percebi que duas fomes pulsavam: aprender e ensinar. E descobri que poderia fazer isso de forma autodidata, através dos livros.

2. Quais dicas daria aos pais para que as crianças se interessem por literatura?

O encantamento contagia. Pais apaixonados por livros atiçam a fome de leitura nos filhos. Mas, algumas vezes, eles próprios não foram “iniciados”. Nesse sentido, seria importante que os pais gerassem oportunidade de contato com o universo maravilhoso dos livros para todas as idades, através de eventos, atividades em livrarias, bibliotecas, festas literárias, encontros com autores. Assim, igualmente poderiam nutrir sua própria criança interior que não teve acesso a esses repertórios essenciais na infância.

3. Conte um pouco sobre seu trabalho com a biblitoerapia.

O trabalho inicia na escuta da narrativa do paciente: o que diz, como diz, onde faz pausas, em que momentos a emoção o faz engolir as palavras. Esses elementos são iscas para o diálogo com os livros, que são apresentados desde a primeira consulta. São ofertados versos, poemas inteiros, trechos da literatura brasileira e estrangeira ou imagens, dependendo das questões reveladas. Fragmentos literários são oferecidos como degustação. Se o paciente desejar, é possível levar o exemplar para aprofundar na leitura e trazê-lo na semana seguinte, quando terá oportunidade de partilhar as ressonâncias, os sentidos, as reflexões geradas.
Os títulos nacionais e internacionais prescritos variam a partir de múltiplos fatores: a questão trazida, os gostos pessoais do cliente e o acervo do terapeuta. Incorporei duas frases que me auxiliam no estágio de contínua vigília, ao lidar com as peculiaridades de cada ser: “Cada escuta acorda uma suspeita”, de Bartolomeu Campos de Queirós e “Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa”, de Guimarães Rosa.  Desde 2010, faço experimentos: desconfio que um livro possa contribuir com o processo de cuidado, ofereço e fico atenta às reações. Há pessoas que relaxam e dizem: “parece que foi escrito por mim/para mim” ou “Preciso disso para respirar”.  Já outras vezes, um livro específico que já ajudou muito no processo de luto de uma pessoa, não teve efeito algum com outra.  Cada um é um grande mistério.  Nas questões existenciais mais complexas, há autores que considero como “das profundezas”, que costumam ajudar: Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Albert Camus, Fiódor Dostoiévski.
Nas sessões iniciais, é recorrente apresentar o poema “Canção excêntrica”, de Cecília Meireles, que trata da busca de espaço para o desenho da vida e “O menino Nito”, de Sonia Rosa, pelo convite a “desachorar”, ou seja, verbalizar os choros engolidos. Optei por trabalhar com adultos e utilizo com fartura a literatura infantojuvenil para todas as idades, por sua capacidade de síntese, sensibilidade e beleza estética. Observo que a linguagem poética, por sua estética, dá acesso às dores e alegrias fossilizadas. Trata-se de processo de pesquisa contínua, já que o mundo da literatura é tão plural quanto o do humano. O acervo é renovado constantemente, até mesmo pelos próprios pacientes, que mostram trechos literários que os afetam.
Além dos atendimentos individuais em consultório, também ofereço rodas de leitura semanais, desde julho de 2011. Nelas, escolho livros com vocação para gerar boas discussões. Os participantes não precisam ter nem ler previamente o livro selecionado. Marco fragmentos para leitura coletiva e ofereço como degustação. É um espaço onde exercitamos múltiplas habilidades: de escuta, da coragem de colocar a voz na roda, de acolher a diversidade, de enriquecer as leituras de si, do outro, do mundo.

4. Em suas oficinas, qual a temática predominante e qual livro não pode faltar?

Isso varia muito de acordo com o público, mas percebo uma falta de esperança generalizada. Por isso, priorizo livros que contribuem para fomentar as resistências, com exemplos inspiradores.

5. Qual livro de sua “farmácia literária” você gosta mais?

Pergunta que não se faz! Mas, vou escolher o livro que me lançou a este universo: “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector.

6. Qual autora contemporânea te inspira e qual livro dela você me recomendaria?

Rosa Montero, “A louca da casa”.

7. O Brasil é um país de poucos leitores. Qual o legado literário que pretende deixar para seus filhos?

O imaginário bem alimentado nos nutre em muitas dimensões. “Ler é sonhar pela mão de outrem.” Fernando Pessoa

8. Fale um pouco do seu livro “Vivências em biblioterapia”.

Livro publicado em 2014, que partiu da necessidade em transbordar e partilhar o manancial de descobertas através dos estudos e aplicação da biblioterapia, tanto de forma individual quanto coletiva. O livro compartilha casos recorrentes na clínica, trechos de livros mais utilizados para cuidar, síntese de livros que representaram os pilares essenciais para iniciar o trabalho. A Editora Cândido abraçou a proposta a partir de 2018 e criou o selo editorial “Coleção Biblioterapia”, que inclui as antologias que são organizadas anualmente, desde 2015, para acolher as produções dos pacientes, alunos e frequentadores das rodas de biblioterapia. Pode ser adquirido nas livrarias Blooks e Travessa, no Rio de Janeiro, São Paulo e Niterói.  As demais localidades podem adquirir através do site www.cristianaseixas.com.

9. Sabendo que a literatura tem função curativa, tanto para quem escreve, quanto para quem lê, deixe uma mensagem inspiradora para as amigas que escrevem, mas ainda não tiveram coragem de divulgar seus textos ao mundo.

Darei passagem para os escritores responderem:
“Escrever é me imprimir.” Bartolomeu Campos de Queirós
“Ao escolher as palavras com que narrar minha angústia, já respiro melhor. A uns Deus os quer doentes, a outros os quer escrevendo. ".” Adélia Prado
“Se tenho que me atrever, eu me atrevo. Porque ontem fui escravo, hoje, escrevo.” Manoel Herculano

Obrigada, Cristiana, por esse bate papo incrível. Desejo muito sucesso em sua carreira.

Aldirene Máximo

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