segunda-feira, 22 de julho de 2019

Entrevista Anna Clara de Vitto



1- Como iniciou seu amor pelas letras?

Fui alfabetizada cedo, com quase 04 anos de idade, brincando com um jogo de letras em madeira que ganhei de presente. A partir daí, a curiosidade me levava a ler (ou tentar ler) quase tudo o que me chegava às mãos, e os livros eram um mundo à parte, passava horas perdida nas histórias, e queria lê-las para todo mundo! Em casa, também havia muito material para leitura, desde revistas sobre assuntos diversos a livros clássicos.

2- Quais dicas você daria aos pais para que as crianças se interessem por literatura?

O exemplo da leitura é importante, mas o estímulo, na verdade, deve ser o da curiosidade, e isso pode ser feito de várias maneiras, como passeios em família (parques, feiras, museus, teatro, eventos em bibliotecas públicas, por exemplo) e tempo de qualidade passado com as crianças. Assim, a leitura passa a ser mais um meio de satisfazer a curiosidade, e não uma obrigação. Claro que, para que isso aconteça, é necessária uma estrutura social mínima (educação, saúde e lazer públicos e de qualidade, ambiente familiar livre de violência e exploração, etc.), infelizmente cada vez menos acessível no Brasil, consideradas as atuais políticas de desmonte.

3- Conte um pouco sobre o livro: "Água indócil"

A “Água indócil” surgiu de um desejo profundo de disputar a narrativa do ser mulher fora de um círculo de opressão e silenciamento, mas esse processo, especialmente desde que comecei a frequentar o Clube da Escrita para Mulheres (de que falarei mais adiante), nunca foi só sobre mim. A “Água indócil”, até por causa do nome, é o retrato de uma potência coletiva, de águas que, unidas, são força indomável, que acolhem e nutrem, mas que também podem destruir, afogar, arrasar. É um livro dividido em três partes (Águas abrigadas, Ressaca e Vento noroeste), fortemente inspiradas na minha origem caiçara, santista, cada qual com sua tônica própria. Os poemas de cada parte falam em nostalgia, em perda de ilusões e em protesto, em luta, sem receio de tocar em temas doloridos, difíceis. A poesia da “Água indócil” não é inofensiva, batalha contra o que se chama de “literatura feminina”, esse rótulo que tem servido apenas para invisibilizar e diminuir o trabalho de escritoras, como se as vivências e experiências de mulheres que escrevem fossem algo menor e indigno de ser chamado de arte. A água se indociliza para demonstrar o contrário: a escrita das mulheres não pode ser contida, flui e transforma estruturas.


4- Como se sentiu ao dar o primeiro autógrafo?

Senti-me extremamente grata por poder dar tanto de mim a quem me lê, e por receber tanto de volta, por tocar pessoas com meus poemas, porque literatura é encontro, é política, é transformação.

5- O Brasil é um país de poucos leitores. Qual o legado literário que pretende deixar para seus filhos?

Se eu pretendesse ter filhos, certamente gostaria que eles soubessem que a literatura é uma forma de arte que espelha o que há de mais humano em cada um de nós e, assim, se traduz em uma poderosa ferramenta de transformação da realidade, acessível a todes em suas muitas formas. De todo modo, é esse o legado que gostaria de deixar com minha poesia.

6- Quais dicas você daria aos autores iniciantes?

Muita leitura e muita escrita! Mas que esse processo não seja solitário: encontrem pessoas com quem existam afinidades, troquem ideias, formem redes!

7- Qual o maior desafio de autores contemporâneos no Brasil?

Acho que ainda são muitos os desafios, e desafios diversos enfrentados conforme pensamos em mulheres, negres, LGBTQIA+s, pessoas com deficiência...há a exclusão, o racismo, o machismo, a tentativa de encaixe da diversidade em estereótipos, e são obstáculos persistentes, apesar de toda a luta e dos avanços. Se eu tivesse de pinçar um desafio entre tantos, e que perpassasse todas essas questões, seria o da relação com as editoras, que nem sempre é tranquila. Por isso, tantes autores optam pela via independente. Durante os encontros do Clube, discutimos bastante a questão da autopublicação.

8- Costuma ir em bienais e feiras literárias?

Sim! Sempre que posso, vou à FLIP, em Paraty - RJ, e à Feira Desvairada de poesia , em São Paulo - SP, e também busco ficar ligada em outros festivais, em slams, em eventos literários que privilegiem a diversidade de público e de produção.

9- Conte um pouco sobre o projeto "Clube da escrita para mulheres".

O Clube foi fundado em 2015 pela escritora, poeta e cordelista Jarid Arraes, que coordena o projeto junto comigo, com o propósito de ser um espaço seguro para que mulheres interessadas por literatura e escrita possam produzir e se reconhecer como escritoras, sempre fomentando a diversidade e a representatividade no meio literário, é um Clube para todas. Lá, aprendemos muita coisa sobre como não se intimidar com as portas fechadas, sobre não ter medo de se posicionar firmemente contra tudo de errado que se vê no meio literário e na vida, sobre fazer o nosso próprio caminho e criar laços com outras escritoras. Desde a fundação, nos transformamos em coletivo em 2017, vimos o número de frequentadoras aumentar, conseguimos transferir nossos encontros para um espaço público super importante da vida cultural de São Paulo (a Hemeroteca da Biblioteca Mário de Andrade), acompanhamos as vitórias de várias de nossas participantes, marcamos presença em feiras e eventos literários, fechamos parcerias ótimas e estamos cheias de planos!

10- Deixe uma mensagem inspiradora para as amigas que escrevem, mas ainda não tiveram coragem de divulgar seus textos ao mundo.

Sua história importa, e é possível mudar o mundo uma história por vez! Então, nos conte sua história, ela é preciosa!

Obrigada, Anna Clara, por este bate papo incrível. Desejo muito sucesso em sua carreira.

Aldirene Máximo

Um comentário:

  1. A entrevista revela uma mulher madura, que sabe o que quer e consciente da força de sua poesia. Parabéns Anna.

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